De onde vem a alma de um personagem e como criar personagens profundos? Essa foi a questão central da terceira edição da Live Escrita Criativa com IA da Editora Solano, um bate-papo entre o escritor e editor Solano e Marília Villanova, Mestre em Educação, pesquisadora e historiadora do corpo de professores da editora.
A resposta desmonta um mito comum entre quem está começando: personagens profundos não nascem apenas da imaginação nem de comandos enviados à inteligência artificial. Eles nascem da observação da vida real, das memórias afetivas e dos pequenos gestos que quase ninguém valoriza. Neste artigo, reunimos o método discutido na live para transformar essa matéria-prima humana em personagens que o leitor nunca esquece, e o papel exato que a IA ocupa nesse processo.
Por que Personagens Profundos Nascem da Vida, e não da Imaginação
Marília abriu a reflexão com uma frase do historiador Michel de Certeau sobre tornar sensível o movimento das vozes verdadeiras. A beleza que sustenta uma grande narrativa costuma estar no que é pequeno: a fumaça subindo de uma xícara de café, uma conversa com a avó, um momento carregado de tradição.

A filosofia ajuda a explicar por quê. Como lembrou Marília citando Heidegger, a linguagem é a morada do ser: o ser humano tem consciência da própria existência e precisa falar sobre ela. Então, é essa proximidade entre palavra e espírito humano que permite à escrita expressar o que há de mais sensível, um fragmento de voz, um gesto, uma memória.
E é exatamente isso que a máquina não capta. Vivemos em um tempo que valoriza o grandioso e a ostentação, mas a profundidade de uma trama se constrói com o oposto: aquilo que ninguém está olhando. Valorizar o que passa despercebido exige, nas palavras de Marília, um silêncio interno. Quem vai para o mundo cheio de certezas não vê o que o mundo tem a dizer.
O Que a IA Faz (e o que Não Faz) na Criação de Personagens
Criar personagens profundos exige muito mais do que criatividade. A live reconheceu com honestidade o que a inteligência artificial faz bem. Na experiência de Marília acompanhando o trabalho da editora, a IA funciona como uma ferramenta de costura de histórias: ajuda a mapear a trama, construir a arquitetura textual, identificar furos na narrativa e desencontros de cronologia. É um trabalho estrutural valioso, que antes consumia meses.
O que ela não entrega é justamente aquilo que torna um personagem inesquecível: suas crises, contradições, dilemas e transformações. Esse estofo de presença e de alma vem da interioridade de quem escreve. Sendo assim, como resumiu Marília, nós é que captamos os diamantes da nossa trajetória para emprestar aos personagens. A IA organiza linearmente uma narrativa que faz sentido; a vida fornece o conteúdo que faz sentir.
Como Criar Personagens Profundos em Cinco Etapas
Solano deu nome ao método que aprendeu com o pai, que ele descreve como um arqueólogo de sentimentos e emoções: alguém que colecionava desde a fala rouca de um senhor de noventa e sete anos até a forma como uma vizinha gritava com as crianças, e correlacionava esses fragmentos a outros perfis que conhecia.

Embora cada escritor desenvolva seu próprio processo criativo, Solano mostrou que existe um caminho comum para construir personagens consistentes:
- Observe como um arqueólogo: capture gestos, vozes, jeitos de andar e modos de falar das pessoas reais ao seu redor. São os fragmentos preciosos do seu quebra-cabeça.
- Correlacione perfis: aproxime o que você observou de pessoas que já conhece. A vizinha que lembra uma tia, o senhor que lembra um avô. É nesse cruzamento que o personagem ganha verossimilhança.
- Empreste suas memórias: entregue ao personagem aquilo que é seu, uma lembrança de infância, uma dor, um amor. É o que Solano chama de emprestar as coisas pessoais para que os personagens expressem os ciclos da vida.
- Pesquise de corpo presente: antes de escrever sua nova obra, Solano passou vinte dias no Acre. Essa experiência vira transcrição, e a transcrição alimenta a organização feita pela IA.
- Teste o próprio envolvimento: se a história do personagem não comove quem escreve, não há razão para colocá-lo no palco.
Um exemplo citado na conversa mostra o método em ação: Marília relatou um trabalho de campo na Espanha em que conheceu um senhor com um cachorro chamado Sombra.
Solano associou a imagem a Dom Quixote e seu cavalo Rocinante, e dali nasceu a inspiração para incorporar esse espírito em um animal de sua própria saga.
O Amuleto de Memória: a Técnica do Teatro para dar Corpo aos Personagens
Marília trouxe ainda uma técnica das artes cênicas, desenvolvida em pesquisas da Unicamp: a construção de personagens pela observação de gestos. Quem deseja criar personagens profundos precisa aprender a observar pessoas reais: quem quer criar uma pessoa em condição de rua, por exemplo, precisa observar profundamente esse modo de habitar o mundo, em vez de inventar da própria cabeça.
Dessa observação nasce o que o diretor de teatro Eugenio Barba chama de amuleto de memória: um gesto mínimo, como um jeito de posicionar o dedo, carregado de tudo o que foi observado. Sendo assim, ao repetir esse gesto, o ator atualiza a memória corporal e emocional que dá presença ao personagem.
Portanto, na escrita acontece o mesmo: uma memória cara ao autor, emprestada ao personagem, se estende ao longo da vida dele na narrativa e sustenta sua profundidade.
Ninguém Escreve Sozinho: O Papel do Diálogo na Criação
Outro ponto alto da live foi o conceito de daimon, na leitura de Hannah Arendt: o nosso verdadeiro eu, que nos acompanha a vida toda caminhando às nossas costas, e que só quem conversa conosco consegue ver. Dessa forma, a imagem explica por que a escrita solitária tem limites: o que há de mais autêntico no escritor aparece no diálogo, na troca, no impacto com o outro e com o mundo.
É o princípio que estrutura o trabalho da editora: o texto de Solano passa pela leitura histórica de Marília, que verifica a coerência dos personagens com os fatos, e pelo debate com uma equipe de professores e pesquisadores. A IA participa da estrutura, mas é a comunidade que afia a sensibilidade.
A Escrita Hospitaleira: Pense no Leitor como um Hóspede
Marília encerrou com uma imagem que vale como bússola para qualquer autor: a escrita hospitaleira.
“Todo texto é uma casa onde o leitor vai habitar temporariamente o pensamento, as memórias e os sentimentos de quem escreveu.”
Sendo assim, escrever bem é arrumar essa casa: acolher, apresentar os cômodos, oferecer o melhor que se tem.
E há um teste simples, proposto por Solano, para saber se a casa está pronta: você tem prazer de ler o que escreveu? Dessa forma, se quem escreveu não sente prazer em percorrer linha a linha o próprio pensamento, por que o leitor sentiria?
Como Começar a Criar Personagens Profundos Hoje
Comece pelo olhar, não pelo teclado. Escolha uma pessoa real que desperte sua curiosidade e observe: gestos, voz, ritmo, contradições. Anote os fragmentos. Além disso, correlacione com memórias suas e com personagens da literatura que você ama. Só depois leve esse material à IA, para estruturar a trama e verificar a coerência da narrativa.

A criação de personagens não é ciência matemática: é arte. Mas arte que se desenvolve plenamente com técnica, método testado e uma comunidade que inspira. É essa formação que a Editora Solano está construindo, com um curso de escrita criativa com IA em lançamento em breve.
Para acompanhar a conversa completa entre Solano e Marília Villanova, confira o vídeo:
Aprender como criar personagens profundos é, antes de tudo, aprender a observar pessoas. A inteligência artificial pode ajudar na estrutura da narrativa, mas os diamantes que dão alma à história estão na sua vida, na sua memória e no seu olhar. A sensibilidade continua sendo exclusivamente humana.
A série de lives Escrita Criativa com IA continua com novos episódios sobre o método da editora e a criação literária na era da inteligência artificial.
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