O que move um ser humano a escrever? Como se Tornar um Escritor? Essas foram as perguntas que atravessaram a quarta edição da Live Escrita Criativa com IA da Editora Solano, um encontro entre o escritor e editor Solano e Júlia Gonçalves Borges, professora, pesquisadora e historiadora, especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global.
A live apresentou o campo pulsional, o primeiro dos quatro campos do Método Solano para a escrita com IA, e propôs uma mudança de perspectiva: antes de aprender técnicas de escrita, é preciso compreender aquilo que forma um escritor. Afinal, ninguém escreve uma grande obra antes de construir o repertório que a torna possível.
A pergunta certa não é como escrever um livro, mas como se tornar um escritor capaz de escrevê-lo. Primeiro forma-se a pessoa. Depois, o escritor.
Hoje, detalhamos essa formação: o que é repertório, como cultivá-lo, o papel da inteligência artificial nesse percurso e por que nenhum livro nasce no dia em que é publicado.
Como se Tornar um Escritor: Antes de Existir uma Obra, Existe uma Pessoa
Júlia abriu sua fala com um convite incomum para uma live sobre tecnologia: esquecer por alguns instantes as técnicas de escrita, as regras narrativas, a inteligência artificial e até a preocupação em publicar. O motivo vem de uma percepção que atravessa a história, a literatura, a filosofia e a psicanálise: todas essas áreas tentam responder, cada uma a seu modo, o que move o ser humano.

A escrita criativa nasce desse encontro. Quando uma ideia deixa de ser apenas informação e passa a ser necessidade de expressão, ela entra em um território interno onde habitam afetos, desejos, dores, experiências, encantamentos e inquietações. É esse território que, no Método Solano, recebe o nome de campo pulsional.
Escrever, nesse sentido, não é despejar palavras sobre uma página. É um movimento de elaboração da experiência humana. É desse território que surgem as histórias que realmente permanecem na memória do leitor.
Informação Não é Repertório
Durante muito tempo se acreditou que escritores eram pessoas tocadas por um dom sobrenatural. A live desmontou o mito com uma distinção central para quem quer escrever hoje: a diferença entre informação e repertório.
Qualquer pessoa acessa milhões de informações em segundos, e a inteligência artificial acelerou esse acesso a uma velocidade jamais vista. Mas informação, por si só, não produz uma grande obra. O que produz é a forma singular como cada ser humano organiza essas informações à luz da própria existência.
Júlia deu um exemplo preciso: duas pessoas com vivências completamente diferentes podem ler o mesmo versículo da Bíblia, um dos livros mais lidos do mundo, e escrever a partir dele obras totalmente distintas. A matéria-prima é semelhante. O campo pulsional de cada uma é único.
E o repertório se forma longe do teclado. Um escritor escreve quando conversa no ônibus, quando se emociona com uma música, quando sente um perfume que desperta uma memória, quando visita uma cidade desconhecida, quando faz uma pergunta que ninguém teve coragem de fazer, quando sofre, quando ama, quando escuta.
A inspiração existe, resumiu Júlia, mas ela costuma visitar quem trabalha. É por isso que aprender como se tornar um escritor envolve muito mais do que dominar técnicas narrativas: exige construir repertório ao longo da vida.
O Jardim Interior dos Grandes Escritores
Para explicar o que diferencia os autores que atravessam gerações, Júlia trouxe uma metáfora que se tornou o coração da live: todos nós cultivamos um jardim interior. Algumas pessoas cultivam flores, outras cultivam espinhos, e há quem abandone o jardim por completo.

Quando encontramos um Ariano Suassuna, percebemos imediatamente um jardim extraordinariamente cultivado: a leveza, a ironia refinada, o humor, a humanidade. Admiramos as flores e esquecemos o tempo que foi necessário para cultivá-las. O mesmo vale para Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Tolstói.
É essa compreensão que muda tudo para quem está começando: o objetivo deixa de ser escrever rápido e passa a ser cultivar aquilo de onde as histórias nascem.
O Campo Pulsional: De Onde Nascem as Histórias
Solano revelou a origem do conceito na própria vida. Biólogo de formação, com vinte e cinco anos dedicados à restauração ambiental, ele cresceu convivendo com o pai, artista plástico e poeta que falava cinco idiomas, pesquisava profundamente antes de escrever e morreu aos quarenta e seis anos sem reconhecimento como artista ou escritor.

Foi para compreender a mentalidade do pai que Solano buscou a formação em psicanálise. E descobriu, nas próprias sessões de análise, que aprendemos mais de nós do que do outro: o que o movia a empreender nas áreas que o pai amava era justamente uma pulsão, conceito que Freud descreve nas formas de pulsão de vida e pulsão de morte. A pulsão é própria do ser humano; o instinto é dos animais. E a arte, pela via da sublimação, é uma das formas mais nobres que encontramos de dar destino a essa força.
Assim nasceu o nome do primeiro campo do Método Solano: o campo do desejo, das imaginações e também do medo. Um campo que deve ser cultivado, porque, como disse Solano na live, seu cultivo pode dar flores perfumadas e mel, mas também pode dar fel. Depende do que se semeia nessa fase de introspecção.
Como se Tornar um Escritor na Prática
Embora cada pessoa tenha um percurso único, quem deseja entender como se tornar um escritor pode começar pelos cinco movimentos apresentados durante a live:
- Cultive a observação e a escuta: o repertório se forma nas conversas, nos gestos, nos perfumes e nas perguntas do cotidiano, muito antes de qualquer página escrita.
- Leia e pesquise com profundidade: um curso de escrita não ensina apenas estrutura narrativa; ensina o ato da observação, da escuta, da pesquisa e da curiosidade intelectual.
- Cultive o pensamento crítico e a sensibilidade: suportar perguntas difíceis e conviver com a dúvida faz parte da escrita, como no divã.
- Aceite o tempo da gestação: vivemos a era do imediatismo, mas o livro nasce da permanência, da contemplação e da maturação, às vezes ao longo de anos.
- Envolva-se com o que escreve: como resumiu Solano sobre seus personagens Heleno e Chapuri, se o autor não chora com o personagem, se o personagem não é ele, a história não se sustenta viva.
O Papel da IA para Quem quer se Tornar um Escritor
E onde entra a inteligência artificial nesse caminho? A posição da live foi clara e equilibrada. A IA transforma profundamente a maneira como pesquisamos, organizamos informações e estruturamos projetos. Ela acelera buscas, identifica padrões que passariam despercebidos em uma leitura isolada e amplia a capacidade de planejamento do autor.
O que ela não faz é substituir o propriamente humano. A IA organiza dados, mas quem organiza os sentidos é o ser humano. Ela sugere estruturas, mas não viveu os afetos que fazem uma narrativa emocionar.
Por isso, a proposta da editora não é uma escrita automática, e sim uma parceria: a máquina amplia a execução, e continua sendo responsabilidade do autor construir repertório, ética, visão de mundo e o próprio campo pulsional. Nas palavras de Solano, escrita criativa com IA é escrita criativa com alma.
As Recompensas de quem Escreve
Solano encerrou com uma reflexão sobre o que a escrita devolve a quem se dedica a ela. A primeira recompensa chega durante o processo: o prazer de desbravar o universo de um perfil que inspira um personagem, de conversar, especular e refletir. Essa satisfação é imediata e independe de publicação.
A segunda vem quando, por meio de método e técnica, essa expressão vira melodia e poesia que outra pessoa aprecia. Encerrando a conversa, Solano recorreu a uma imagem para explicar o papel da escrita: a palavra escrita é o corpo, e a palavra dita é a alma. Ao escritor cabe a missão de transformar pensamento em corpo. Poder viver, dentro de uma vida finita, fazendo o que se ama, é a maior recompensa de todas.
Aprender como se tornar um escritor começa muito antes da primeira página. Começa no repertório que você constrói, nas experiências que vive, nas perguntas que faz e no jardim que cultiva dentro de si. A inteligência artificial pode ampliar a técnica e organizar o caminho, mas a origem das histórias continua sendo exclusivamente humana.
Para acompanhar a conversa completa entre Solano e Júlia Gonçalves Borges, confira o vídeo:
A série de lives Escrita Criativa com IA continua no próximo episódio com o segundo campo do Método Solano: o campo nuclear, o campo das relações.
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