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LITERATURA . PENSAMENTO . LEGADO

Imagem: Acervo Editora Solano

A história está completa na sua cabeça. No papel, falta o que você não consegue ver.

O texto mostra por que o autor nem sempre percebe as lacunas do próprio rascunho e como a IA pode apoiar a leitura crítica, preservando a escrita e as decisões humanas.

Por Solano

Você sabe o que aconteceu. Sabe por que o personagem fez aquilo, o que o capítulo 3 prepara, o que o leitor deveria sentir na última página. Então relê o rascunho e ele parece inteiro.

Para o leitor, não está. E a razão é que você sabe demais.

O problema tem nome

No início dos anos 1990, Elizabeth Newton, então estudante de pós-graduação em Stanford, pediu a algumas pessoas que batucassem o ritmo de músicas conhecidas e a outras que adivinhassem. Quem batucava previu que o outro acertaria cerca de metade das vezes.

Entre cerca de 120 músicas, os ouvintes acertaram três: 2,5%, uma em quarenta. Quem batucava ouvia a melodia na cabeça. O ouvinte só ouvia pancadas na mesa. Em economia, esse viés recebeu o nome de "maldição do conhecimento" (Camerer, Loewenstein e Weber, 1989): depois que você sabe uma coisa, não consegue mais imaginar como é não saber.

No livro, a melodia é a sua história. O texto são as pancadas. O que falta na página não fica marcado como falta. A sua memória completa a frase sozinha e você não percebe.

Duas dúvidas que viram uma só

Quem escreve hoje carrega duas perguntas que parecem separadas:

Como eu descubro o que falta no meu texto, se na minha cabeça está tudo lá?

Se eu uso IA, como eu continuo sendo o autor e posso provar isso?

A resposta é a mesma: saber a hora de usar a IA e a hora de não usar.

O que a regra e o mercado já dizem e onde falta a prova

A Lei 9.610/98 (art. 11) define autor como pessoa física. Os textos jurídicos que consultamos concordam em que ela não responde com clareza a quem pertence um texto gerado por IA, e o PL 2338/2023 também não. O Manual de Boas Práticas de IA da Câmara Brasileira do Livro é direto: ferramentas de IA não podem ser listadas como autoras ou coautoras, e gerar textos completos apresentados como humanos, sem modificação substancial e revisão crítica, configura má-fé e pode ser considerado plágio ou fabricação. Para texto, o manual aceita a IA em brainstorming, bloqueio criativo e rascunhos, desde que haja reescrita substancial "para garantir voz autoral". A divulgação é recomendada quando a contribuição da IA for significativa, e não é exigida para correção ortográfica ou formatação básica. Ele também avisa que o conteúdo gerado por IA pode não ter proteção autoral. O Jabuti, segundo reportagem de março de 2026, não aceita obras criadas por IA.

Há regra para a autoria e para a transparência. O manual recomenda que a editora mantenha um registro (logs) de tudo o que a IA faz nos seus processos, mas não pede que o autor guarde o caminho do próprio livro. E a reportagem da DW publicada pelo O Povo (13/10/2026), sobre o escritor indicado ao Goncourt e depois acusado de ter escrito com IA, levanta a pergunta e não traz nenhum método para respondê-la. O pesquisador Hannes Bajohr resume: "Teremos de aprender a conviver com a dúvida".

Falta a prova. E o autor que não tem critério sobre quando usar a IA também pode ter dificuldade para mostrar o próprio processo.

A hora de usar a IA

Use a IA onde ela faz o que você não consegue fazer sozinho: ler sem saber.

Leitor frio. Entregue o trecho, sem explicar nada, e peça que ela diga o que entendeu, o que não ficou claro e que perguntas ficaram abertas. Cada pergunta dela pode revelar uma lacuna que a sua memória estava tapando.

  • Entrevista. Deixe que ela pergunte sobre a sua história. Quando você precisar explicar em voz alta, o que estava implícito vira texto.
  • Estrutura. Peça que ela monte o mapa do que o texto já diz e compare com o mapa que você tem na cabeça. A diferença entre os dois é o que falta.
  • Crítica pontual, de uma coisa por vez: ritmo, clareza, repetição.

Em todos esses usos, a IA aponta. Quem decide é você.

A hora de não usar

Não use a IA onde a escolha é o que faz o livro ser seu:

Preencher a lacuna. Quando a IA diz "falta aqui", a tentação é pedir que ela escreva o trecho. Mas o conteúdo da lacuna é a parte da história que só você tem. O que ela inventar pode parecer coerente sem expressar o que você queria contar.

A voz. Decidir como a frase soa, o que fica de fora e o que o personagem diria.

A primeira versão de uma cena que você ainda não viveu na escrita. Se você não escreveu, ainda não sabe o que sente sobre ela.

A regra prática: a IA pode dizer onde está o buraco. Só o autor pode dizer o que vai nele.

E os registros de autoria?

O critério acima ajuda a documentar o processo. Se você usa a IA para perguntar e não para escrever, cada uso deixa um registro simples: o que você entregou, o que ela apontou e o que você decidiu fazer. Esse é o rastro de autoria: o projeto, o mapa, as versões do capítulo e o registro de onde a IA entrou e onde não entrou.

Por que isso não se aprende lendo um artigo

Entender a ideia leva dois minutos. Sentir a lacuna é outra coisa: você só descobre o que o seu texto não diz quando alguém que não sabe nada lê o que você escreveu e responde. E o hábito de registrar só funciona se nascer junto com o livro, porque reconstruir esse rastro depois pode dificultar a recuperação dos registros.

No Escreva Seu Livro, os quatro sábados ao vivo são desenhados para isso. O primeiro encontro trata das regras da IA e da definição do projeto. Depois vêm a estrutura do livro, a escrita (com o método de Solano, que parte da fala, e o trabalho de escrita com Sandro) e a lapidação. Há uma tarefa de escrita por semana.

O curso segue o Manual de Boas Práticas da CBL: a IA não é autora nem coautora. "Aqui a IA entrevista, organiza, critica e aponta. A escrita é sua."

Você sai com projeto, mapa e primeiro capítulo trabalhado, e com o critério de quando chamar a IA e quando fechar a porta.

Para quem é e para quem não é

Se você quer uma ferramenta que escreva o livro por você, este curso não é para você. Se tem uma história que está completa na sua cabeça e quer descobrir o que falta para ela chegar ao leitor, é.

Escreva Seu Livro — quatro sábados ao vivo (7, 14, 21 e 28 de novembro de 2026), das 8h ao meio-dia, R$ 499, 16 horas com certificado, 12 meses de acesso e garantia de 7 dias.

O carrinho fecha em 06/11 (sex), às 23h59, e as vagas são limitadas.

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