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LITERATURA . PENSAMENTO . LEGADO

O que trouxemos de Frankfurt: encontros e aprendizados da Editora Solano

A participação na Feira do Livro de Frankfurt de 2026 abriu conversas sobre pesquisa, oralidade, relações profissionais e o uso da inteligência artificial com responsabilidade editorial.

A presença da Editora Solano na Feira do Livro de Frankfurt, em outubro de 2026, trouxe perguntas que continuam úteis depois do encontro: como apresentar uma história a quem ainda não a conhece? O que uma conversa revela sobre um projeto em construção? E quais decisões precisam permanecer nas mãos de autores, tradutores e editores quando a tecnologia entra no processo?

A dimensão da feira ajuda a compreender a variedade desses encontros. Segundo o balanço oficial, a 78ª edição reuniu 236 mil visitantes de 137 países, sendo 119 mil profissionais e 117 mil visitantes do público geral. Foram 4 mil expositores e mais de 3.800 eventos, somando a programação no recinto da feira e na cidade. Realizada de 7 a 11 de outubro, Frankfurt colocou diferentes maneiras de produzir, apresentar e ler livros em contato.

Uma história também precisa encontrar sua voz

Nas conversas realizadas durante a feira, Solano destacou o que a observação de outros autores lhe fez pensar sobre a oralidade. Ouvir alguém apresentar o próprio trabalho permite perceber escolhas, referências e relações que nem sempre aparecem numa sinopse. A maneira de contar também revela o quanto o autor conhece aquilo que está escrevendo.

Esse exercício pode começar muito antes de um lançamento. Ao narrar uma cena ou explicar uma personagem, o escritor encontra hesitações, percebe lacunas e descobre quais partes pedem pesquisa. Uma pergunta de quem escuta pode expor um detalhe que parecia resolvido no papel. Depois da conversa, cabe voltar ao texto e decidir o que merece permanecer.

A pesquisa sustenta essa passagem entre a fala e a escrita. Conhecer um contexto histórico, confrontar versões ou conversar com alguém que estudou determinado assunto amplia as escolhas do autor. A segurança para apresentar uma obra nasce também desse trabalho, feito antes de qualquer tentativa de divulgá-la.

Relações que aprofundam o trabalho

Outro aprendizado compartilhado foi o valor de construir relações com pessoas que conhecem outros aspectos do universo do livro. Autores, editores, tradutores e pesquisadores podem perceber questões diferentes num mesmo projeto. Escutar essas leituras ajuda a reconhecer tanto suas possibilidades quanto seus limites.

Isso pede disponibilidade para rever uma ideia. Uma conversa pode sugerir outro caminho para uma personagem, uma pesquisa complementar ou uma forma mais clara de apresentar a proposta. A decisão de mudar continua ligada ao sentido que o autor quer construir. Conhecer expectativas de outros leitores ajuda a fazer escolhas conscientes, sem transformar cada comentário recebido em uma ordem para reescrever.

Também apareceram, nas conversas relatadas pela equipe, manifestações de interesse por histórias brasileiras e por temas ligados à natureza e à ecologia. São impressões de encontros específicos, não uma medida da demanda de todo o mercado. Para a editora, elas oferecem perguntas de pesquisa e pontos de diálogo, que precisam ser aprofundados com atenção a cada obra e a cada interlocutor.

Inteligência artificial com supervisão editorial

Em 10 de outubro, um encontro online realizado diretamente da feira levou o debate sobre inteligência artificial no mercado editorial a quem acompanhava a distância. A conversa passou por ferramentas de apoio à organização do trabalho, à pesquisa de público e à comunicação, além das dúvidas de quem procura compreender seus usos na área.

Uma questão atravessou o debate: o resultado produzido por uma ferramenta precisa ser examinado por quem conhece o trabalho. Organizar informações pode ajudar uma equipe, mas escolher o que faz sentido, conferir uma afirmação e reconhecer o que foi perdido numa reformulação exigem atenção humana. Para um texto literário, isso inclui preservar as escolhas de linguagem que tornam aquela escrita particular.

A tradução tornou esse cuidado especialmente concreto. No encontro, foi defendida a necessidade de revisão humana, sem tratar uma tradução automática como texto pronto para publicação. Uma passagem pode parecer fluente e ainda deslocar o sentido, o tom ou uma referência cultural. O trabalho do tradutor permanece importante justamente onde uma solução aparentemente correta pede leitura mais cuidadosa.

O que continua depois da feira

Essas reflexões oferecem exercícios possíveis para quem escreve: contar o projeto em voz alta, anotar as perguntas que surgem, conferir o que ainda depende de pesquisa e procurar interlocutores capazes de oferecer outras leituras. Quando houver tecnologia no processo, vale definir a função da ferramenta e quem verificará o resultado.

O retorno de Frankfurt deixa esse trabalho aberto. Transformar encontros em aprendizado exige tempo para retomar anotações, escutar melhor e decidir o que contribui para cada livro. Que pergunta feita por outra pessoa ajudaria você, hoje, a enxergar melhor a história que está escrevendo?

Equipe de apoio editorial

Balanço oficial da Feira do Livro de Frankfurt 2026