Por que tantos livros acabam parecidos, com capas iguais, títulos iguais e textos que poderiam ser de qualquer autor? A resposta, quase sempre, não está na falta de talento: está na falta de projeto.
Esse foi o tema da sexta live da série Escrita Criativa com IA, transmitida dos estúdios da Editora Solano, em que o escritor e editor Solano recebeu Kennedy Carvalho, escritor, editor literário e seu sócio, bacharel em teologia e estudante de psicanálise, com quinze livros publicados entre devocionais e obras acadêmicas, além de projetos de organização de grande porte, como a Dogmática Reformada, do teólogo holandês Herman Bavinck.
Neste artigo, reunimos as ideias da conversa e mostramos como fazer um projeto literário capaz de orientar um livro do primeiro rascunho à capa.
O que é um Projeto Literário?
Um projeto literário é o documento que registra o porquê de um livro: o propósito da obra, a causa que a motiva e o público que ela pretende alcançar. Assim, é ele que orienta todas as decisões seguintes, do tom do texto à linguagem, do design à capa.

Como explicou Kennedy na live, esse porquê nasce na mente do autor, mas não pode ficar só nela. Precisa ser transmitido ao editor, ao preparador de texto, ao diagramador e ao designer da capa, para que todos caminhem na mesma linha. No método da Editora Solano, esse registro se desdobra também no memorial descritivo conceitual, o documento que fundamenta as decisões criativas de cada livro.
Por que Todo Livro Precisa de um Porquê?
Kennedy citou na conversa uma referência conhecida do mundo dos negócios, o livro Comece pelo Porquê, de Simon Sinek: sem um porquê, ninguém entende o como. Na literatura, o princípio é o mesmo. A narrativa precisa ter uma causa para funcionar.
O exemplo que ele trouxe é reconhecível por qualquer leitor: os livros de aeroporto. As capas parecem iguais, os títulos se repetem, porque o propósito é genérico. Não há demérito nisso, é assim que aquele mercado funciona. Mas o exemplo revela o princípio pelo avesso: quem não sabe por que o livro existe produz o que qualquer um produziria.
E há uma premissa que resume a filosofia de trabalho apresentada na live:
Eu não escrevo para mim. Eu escrevo para a pessoa que vai ler.
Pensar no outro, no leitor que vai receber a obra, então, é o ponto de partida de qualquer projeto literário consistente.
O Que Acontece Quando um Livro Não Tem Projeto Literário
A ausência de projeto raramente impede um livro de ficar pronto. O que ela compromete é a coerência do conjunto, e os sintomas costumam se repetir:
- Decisões desconectadas: cada etapa resolve seus problemas isoladamente, sem um propósito comum que as amarre;
- Capa que não conversa com o texto: o designer cria a partir de suposições, e o visual promete um livro diferente do que o leitor encontra;
- Linguagem inadequada ao público: como no exemplo citado por Kennedy, um texto rebuscado chega a um leitor iniciante, que abandona a leitura sem entender o que aconteceu;
- IA produzindo respostas genéricas: sem um projeto que diga o que reproduzir, a ferramenta entrega o que entregaria a qualquer um;
- Equipe trabalhando sem direção: editor, preparador, revisor e diagramador avançam, mas cada um para um lado.
É o retrato dos livros que parecem todos iguais: não faltou trabalho, faltou porquê.
Como Fazer um Projeto Literário em Cinco Passos
Definir o projeto de um livro pode parecer abstrato, mas a conversa entre Solano e Kennedy permite organizar o processo em etapas práticas, úteis para quem deseja aprender como fazer um projeto literário:
- Defina o porquê da obra: qual é o propósito deste livro? Que causa o motiva? O que ele pretende provocar em quem lê?
- Conheça o público que quer alcançar: um livro para quem está entrando agora no mundo da leitura pede uma linguagem; uma obra acadêmica pede outra. O público define o texto.
- Registre tudo em um documento: o projeto só cumpre sua função quando sai da cabeça do autor e vira registro compartilhável.
- Transmita o projeto a toda a equipe: editor, preparador de texto, revisor, diagramador e capista precisam conhecer o porquê do livro para que cada decisão, da vírgula à capa, sirva ao mesmo propósito.
- Só então acione as ferramentas: a inteligência artificial e os demais recursos entram depois que o projeto existe, porque é ele que diz às ferramentas o que produzir.
O Caso das Traduções: Quando o Propósito Define o Texto
Um dos momentos mais ricos da live foi o exemplo das traduções. Kennedy comparou duas edições de As Confissões, de Santo Agostinho, feitas por tradutores diferentes a partir do mesmo original em latim.

Uma delas carrega erudição nas palavras: o tradutor imprime sua identidade, seu repertório e sua forma de enxergar o mundo. A outra traduz o mesmo texto em uma leitura acessível ao público em geral. Qual é a melhor? Nenhuma. Cada uma serve a um propósito diferente, e as duas cumprem bem o seu.
A lição vale para qualquer publicação: o projeto define o texto. Sendo assim, se o preparador de texto não conhece o propósito, pode construir uma linguagem rebuscada para um público que precisava de simplicidade, e o leitor abandona o livro sem entender o que aconteceu.
O Papel da IA em um Projeto Literário
E a pergunta polêmica que abriu a live: a sistemática da tecnologia pode interferir na criatividade do escritor?
A resposta da conversa desloca o problema. A inteligência artificial só produz resultados genéricos quando recebe comandos genéricos. Por isso, antes de traduzir, revisar ou estruturar uma obra, é preciso definir o projeto literário. Só então a IA poderá reproduzir aquilo que o autor pretende comunicar. Como reforçou Solano, não há como substituir o conhecimento e o espírito humano nesse processo: a imersão em uma formação, a busca por novos saberes específicos, é o que diferencia o profissional do mundo literário.

A síntese de Kennedy fecha a equação: o profissional que se destaca hoje é o que tem os dois lados. O conhecimento, que nenhuma ferramenta substitui. E a atenção às inovações e ao mercado, que nenhum conhecimento dispensa.
Por onde Começar o seu Projeto Literário
Aprender como fazer um projeto literário começa com uma pergunta honesta: por que este livro existe? Primeiro, responda a essa pergunta por escrito. Depois, defina quem você quer alcançar e registre essas decisões em um documento. Em seguida, compartilhe o projeto com todas as pessoas envolvidas na obra. Só então utilize as ferramentas, inclusive a inteligência artificial, sempre a serviço do propósito definido.
Um livro sem projeto pode até ficar pronto. Mas um livro com projeto sabe aonde vai, e leva o leitor junto.
A série de lives Escrita Criativa com IA continua com novos episódios sobre o método da editora e a criação literária na era da inteligência.
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